Treino

Zonas de treino: como calculá-las sem laboratório

Seus atletas correm tudo na mesma intensidade e não melhoram em nada. Os três testes de campo para definir as zonas reais deles, sem lactato e com o material que você já tem.

Por Equipe ATHRIX ·

Zonas de treino: como calculá-las sem laboratório

Abra a planilha de qualquer um dos seus atletas e olhe os ritmos das últimas quatro semanas. Se o trote regenerativo de terça, o longão de sábado e metade dos tiros entram todos na mesma faixa de trinta segundos por quilômetro, você já sabe por que ele não melhora.

Não é falta de volume nem de vontade. É que todo o treino aeróbico dele está acontecendo na mesma intensidade: rápido demais para recuperar, lento demais para estimular. A zona em que a pessoa se cansa muito e evolui pouco.

O problema é que corrigir isso exige saber onde estão os limites reais daquele atleta, e é aí que a maioria dos coaches trava: não temos analisador de lactato, nem esteira com máscara, nem vontade de mandar cada aluno para um laboratório que custa o equivalente a dois meses de serviço.

A boa notícia é que não é preciso. Com um cronômetro, um frequencímetro e uma pista você consegue determinar zonas de treino precisas o suficiente para tomar todas as decisões de programação que você vai tomar este ano. Este artigo é o protocolo completo: o que testar, como, com que frequência e o que fazer com os números.

Por que a fórmula 220 menos a idade está arruinando sua programação

Vamos começar pelo que você precisa parar de usar. A estimativa de frequência cardíaca máxima com "220 menos a idade" tem uma dispersão enorme: numa população de atletas da mesma idade, os valores reais se distribuem com desvios de dez a doze batimentos para mais ou para menos. Nos extremos, vinte.

Traduzindo para o seu trabalho diário: se você calcula as zonas de uma atleta de 35 anos assumindo uma máxima de 185 e a máxima real dela é 197, toda a zona 2 dela fica quinze batimentos abaixo do que deveria. Ela vai treinar leve demais para estimular qualquer coisa, vai se entediar e em seis semanas vai te dizer que o plano não funciona. Se for o contrário, ela vai fazer todos os longões no limiar e vai chegar destruída no bloco de força.

Há um segundo problema, mais profundo: a frequência máxima não determina o desempenho e não se treina. O que determina o desempenho é o limiar, ou seja, a intensidade mais alta que o atleta consegue sustentar em estado estável. É esse número que sobe quando a programação funciona, e por isso é o que vale medir.

Não estime a máxima para deduzir o limiar. Meça o limiar diretamente: é o dado que você usa todas as semanas e o único que se move com o treino.

Os três testes de campo que resolvem 95% dos casos

Tudo o que você precisa vem de três testes. Nenhum exige mais equipamento do que você já tem, e os três são repetíveis, que é a condição que realmente importa: um teste imperfeito, mas idêntico a cada três meses, te dá mais informação do que um teste de laboratório feito uma única vez.

Teste 1: contrarrelógio de 30 minutos para a frequência cardíaca de limiar

É o mais útil e o mais incômodo. Depois de um aquecimento de quinze minutos, o atleta corre 30 minutos no maior esforço que consiga sustentar de forma constante, sozinho, sem coelho e em terreno plano. Registre a frequência cardíaca média dos últimos 20 minutos: esse valor é a frequência cardíaca de limiar dele, e dela saem todas as zonas de pulso.

Três detalhes que definem se o teste vale ou não:

  • Sozinho, nunca em grupo. Em grupo, o teste vira uma disputa e o atleta sai 5% mais rápido do que consegue sustentar. Os primeiros dez minutos voam e os últimos vinte são uma queda livre que contamina a média.
  • Terreno e condições fixos. A mesma pista ou o mesmo circuito, e se possível o mesmo horário. Com mais de 25 graus ou muita umidade, o pulso dispara sem que a intensidade real mude: se você testar em janeiro ao meio-dia e retestar em julho pela manhã, está comparando duas coisas diferentes.
  • Atleta descansado. Sem sessão pesada nas 48 horas anteriores. Um teste feito com fadiga acumulada te dá um limiar subestimado e você vai programar todo o bloco abaixo do que deveria.

Com esse número, as zonas ficam assim (todas expressas como porcentagem da frequência cardíaca de limiar, não da máxima):

  • Zona 1, recuperação: abaixo de 81%. Conversa completa, sensação de que sobra fôlego.
  • Zona 2, base aeróbica: 81 a 89%. Frases longas sem ficar sem ar. É a zona onde vive a maior parte do volume.
  • Zona 3, tempo: 90 a 93%. Frases curtas. A zona que deve ser usada pouco e de propósito.
  • Zona 4, limiar: 94 a 99%. Palavras soltas. Sustentável entre 20 e 60 minutos dependendo do nível.
  • Zona 5, VO2: 100% ou mais. Não se fala. Intervalos de 3 a 5 minutos.

Teste 2: 5 quilômetros para as zonas de ritmo

O pulso serve para controlar o trabalho leve e longo. Para o trabalho intenso é um mau instrumento: demora demais para responder, então num tiro de 400 metros o número só chega quando o tiro já terminou. Aí, quem manda é o ritmo.

Um 5k no limite, com o atleta descansado, dá a referência. A partir desse ritmo por quilômetro, você deriva as demais intensidades com uma aproximação que funciona bem na prática:

  • Ritmo de limiar: de 10 a 15 segundos por quilômetro mais lento que o do 5k.
  • Ritmo de tiros curtos (VO2): o ritmo do 5k ou levemente mais rápido, em séries de 3 a 5 minutos.
  • Ritmo de longão fácil: entre 60 e 90 segundos por quilômetro mais lento que o do 5k. Sim, tanto assim. É o número que os atletas mais contestam e o que mais devolve em desempenho.

Para o atleta híbrido, esse teste tem um valor extra: o ritmo de 5k feito descansado é a linha de base com a qual você vai comparar os quilômetros de corrida dele com fadiga. A distância entre esses dois números é, na prática, a margem de melhora dele na prova.

Atleta terminando um teste no remoergômetro com cinta de frequência cardíaca enquanto o treinador registra os dados num tablet

Teste 3: 2000 metros de remo para os ergômetros

Se você treina atletas de HYROX, CrossFit ou funcional, as zonas de corrida não bastam: boa parte do trabalho aeróbico passa pelo remo, pelo SkiErg e pela bike. E o ritmo de remo de um atleta não se deduz do ritmo de corrida dele, porque dependem de massa muscular e técnica diferentes.

O teste padrão é um 2k de remo no limite. Do split médio saem as referências:

  • Ritmo aeróbico base: de 10 a 14 segundos por 500 metros mais lento que o split do 2k.
  • Ritmo de limiar: 4 a 6 segundos mais lento que o 2k.
  • Ritmo de tiros: o split do 2k ou levemente mais rápido, em séries curtas.

Esses números têm um uso comercial direto: são os que você vai passar ao atleta como objetivo de estação quando montar o plano de prova dele. Um atleta que chega à linha de largada sabendo em que split precisa remar os 1000 metros não improvisa, e não improvisar é a diferença entre entrar inteiro ou já destruído no sled push.

O erro que arruína a zona 2 no treino híbrido

Há um problema específico da nossa modalidade que vale ter em mente antes de programar qualquer coisa: as zonas de frequência cardíaca não funcionam quando há carga externa.

Num sled push pesado, num farmer's carry ou numa série de wall balls, o pulso dispara pelo componente de força e pela resposta muscular local, não porque o atleta esteja na zona 5 aeróbica. Se você tentar controlar essas estações pelo pulso, vai tomar decisões erradas o tempo todo.

A regra prática é simples:

  • Trabalho cíclico sem carga externa (corrida contínua, bike, remo, elíptico): controle pelo pulso e pelo ritmo.
  • Trabalho com carga ou misto (estações, circuitos, trenó, carregamentos, wall balls): controle pelo RPE, pelo tempo de trabalho e pelo descanso, e use o pulso só como dado descritivo depois.

O outro erro clássico é mais sutil: a deriva cardíaca. Numa sessão longa, o pulso sobe entre 5 e 10 batimentos na mesma intensidade real, por desidratação e temperatura. Se o seu atleta tem a instrução rígida de nunca passar de um número, vai acabar andando no quilômetro 14 de um longão que estava fazendo perfeitamente. Dê a ele uma margem explícita para a segunda metade das sessões longas.

Com que frequência retestar, e por que o reteste vende seu serviço sozinho

As zonas ficam desatualizadas. Um atleta que treina com consistência desloca o limiar dele em seis a oito semanas e, a partir daí, continua treinando com números antigos: a zona 2 fica baixa e o estímulo se dilui sem que ninguém perceba.

A cadência que funciona:

  • Teste inicial dentro das primeiras duas semanas do atleta, junto com o resto da bateria de avaliação.
  • Reteste a cada 8 a 12 semanas, ou no encerramento de cada mesociclo.
  • Reteste extra depois de uma lesão, de uma pausa longa ou de uma mudança grande de modalidade.

E aqui vai o que quase ninguém aproveita: o reteste é a melhor ferramenta de retenção que você tem. O progresso aeróbico é invisível no dia a dia. O atleta não sente que melhorou; sente que continua se cansando. Mas quando você mostra a ele que o ritmo de limiar baixou doze segundos por quilômetro com o mesmo pulso de três meses atrás, a conversa muda completamente.

Esse número tem um efeito que nenhuma foto de progresso consegue: transforma seu trabalho em algo demonstrável. E um atleta para quem você consegue demonstrar o progresso não cancela reclamando do preço.

Como transformar isso em parte do seu serviço

Um teste isolado não diferencia ninguém. O que diferencia é ter um sistema: o mesmo protocolo para todos, guardado, comparável e visível para o atleta.

A versão mínima que recomendamos montar:

  1. Um documento de protocolo com os três testes, suas condições e as tabelas de conversão. Você escreve uma vez e usa por cinco anos.
  2. Uma data fixa de reteste no calendário de cada atleta, avisada com antecedência. A sessão de teste não se negocia nem se substitui.
  3. Um registro histórico de cada teste, para poder colocar o primeiro ao lado do último.
  4. Um feedback de dez minutos depois de cada reteste, com os três números que mudaram e o que cada um implica para o bloco seguinte.

No ATHRIX essa parte deixa de ser uma planilha solta: você registra os testes como sessões dentro do plano, com seus parâmetros de ritmo, pulso e RPE, e eles ficam guardados no histórico do atleta com data. Quando chega o reteste, você tem a comparação pronta, e pode deixar as zonas escritas em cada sessão do plano para que o atleta saiba exatamente em qual pulso e em qual ritmo precisa treinar cada dia, sem precisar te escrever no WhatsApp para perguntar.


Conclusão

Você não precisa de um laboratório: precisa de três testes repetíveis e da disciplina de refazê-los.

Pare de estimar zonas a partir da idade, meça o limiar diretamente com um contrarrelógio de 30 minutos, acrescente um 5k e um 2k de remo para ter as referências de ritmo, e aceite que no trabalho com carga o pulso não manda. Com isso você já tem todas as decisões de intensidade do ano cobertas.

Depois coloque isso no calendário a cada dois ou três meses. Os números que saem desse reteste são, ao mesmo tempo, seu ajuste de programação e seu melhor argumento de venda.